{"id":473,"date":"2008-01-08T17:37:10","date_gmt":"2008-01-08T17:37:10","guid":{"rendered":"http:\/\/marialaet.com\/?p=473"},"modified":"2017-01-08T20:58:42","modified_gmt":"2017-01-08T20:58:42","slug":"entrevista-para-publicacao-abre-alas-a-gentil-carioca","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/marialaet.com\/en\/textos\/entrevista-para-publicacao-abre-alas-a-gentil-carioca\/","title":{"rendered":"Interview for Abre Alas, A Gentil Carioca"},"content":{"rendered":"<p class=\"qtranxs-available-languages-message qtranxs-available-languages-message-en\">Sorry, this entry is only available in <a href=\"http:\/\/marialaet.com\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/473\" class=\"qtranxs-available-language-link qtranxs-available-language-link-pb\" title=\"PT\">PT<\/a>. For the sake of viewer convenience, the content is shown below in the alternative language. You may click the link to switch the active language.<\/p><p>MA: O trabalho que voc\u00ea apresenta nessa exposi\u00e7\u00e3o parece estar aparte da maioria dos outros trabalhos que voc\u00ea produziu, os quais se apresentam, ou talvez se ofere\u00e7am seria a melhor descri\u00e7\u00e3o, ao meio que os envolve. Eu gostaria ent\u00e3o que voc\u00ea falasse um pouco sobre a rela\u00e7\u00e3o que seus trabalhos t\u00eam com a id\u00e9ia de fluidez, literalmente a sua rela\u00e7\u00e3o com fluidos e\/ou gases.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>ML: Os elementos na natureza falam muito da nossa rela\u00e7\u00e3o com o mundo, com o outro e com n\u00f3s mesmos. Me atraio pelos l\u00edquidos e gases pela sua vulnerabilidade em rela\u00e7\u00e3o ao contexto, a sua capacidade de se envolver com os movimentos e espa\u00e7os do mundo, e o fato de serem org\u00e2nicos, mut\u00e1veis e de uma forma inapreens\u00edveis.<\/p>\n<p>Pra mim \u00e9 um pouco como nesse trecho de Francis Ponge (\u2018Le Parti pris des choses\u2019, 1942), falando da sua percep\u00e7\u00e3o da \u00e1gua:<\/p>\n<p>\u201cEla \u00e9 branca e brilhante, informe e fresca, passiva e obstinada em seu \u00fanico vicio: o peso; disp\u00f5e de meios excepcionais para satisfazer esse vicio: contornando, penetrando, erodindo, filtrando.\u00a0Dentro dela mesma esse vicio tamb\u00e9m age: ela desmorona incessantemente, renuncia a cada instante a qualquer forma, s\u00f3 tende a humilhar-se, a esparramar-se de bra\u00e7os no ch\u00e3o, quase cad\u00e1ver como os monges de algumas ordens [&#8230;]\u00a0Poder\u00edamos dizer at\u00e9 que a \u00e1gua \u00e9 louca devido a essa necessidade hist\u00e9rica de s\u00f3 obedecer ao seu peso, que a possui como uma id\u00e9ia fixa [&#8230;]\u00a0L\u00cdQUIDO \u00e9 por defini\u00e7\u00e3o o que prefere obedecer ao peso a manter sua forma, o que recusa toda forma para obedecer a seu peso. E que perde toda sua compostura por causa dessa id\u00e9ia fixa, desse escr\u00fapulo doentio [&#8230;]\u00a0Inquietude da \u00e1gua: sens\u00edvel a menor mudan\u00e7a de inclina\u00e7\u00e3o. Saltando as escadas com os dois p\u00e9s ao mesmo tempo. Brincalhona de uma obedi\u00eancia pueril, voltando logo que a chamamos mudando a inclina\u00e7\u00e3o para este lado.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>MA: Ent\u00e3o o trabalho da gaze atua como um corpo poroso, um aparato que quer dividir, mas que n\u00e3o consegue faze-lo totalmente, que indica talvez o limite de uma transi\u00e7\u00e3o, que enfatiza essa \u2018necessidade hist\u00e9rica\u2019 na palavras do Ponge, ou talvez que marca o contorno de um movimento de outra forma invis\u00edvel, como nos outros bal\u00f5es que estando quase livres, tra\u00e7am e capturam o movimento envolta deles. \u00c9 por isso que eu vejo aquele bal\u00e3o s\u00f3, que fica ali aprisionado naquela caixa de vidro, como sendo t\u00e3o diferente dos outros trabalhos. Voc\u00ea pode falar um pouco dessa distin\u00e7\u00e3o que existe na fun\u00e7\u00e3o do que no final nas contas \u00e9 o mesmo objeto, um bal\u00e3o branco, mas que em um trabalho age como um objeto, uma escultura talvez, colocado numa caixa de vidro, enquanto em outros trabalhos age como parte de um aparato, a for\u00e7a motora desse aparato que tra\u00e7a um desenho quase que aleat\u00f3rio?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>ML: Primeiro \u00e9 todo o ar que cabe no pulm\u00e3o, \u00e9 o f\u00f4lego todo de uma pessoa. Come\u00e7a como uma visualiza\u00e7\u00e3o (ou externaliza\u00e7\u00e3o) do nosso espa\u00e7o interno, de um espa\u00e7o vital. Ao mesmo tempo a tentativa imposs\u00edvel de apreender ou proteger esse ar, esse espa\u00e7o. Nesse trabalho, tanto o bal\u00e3o quanto a caixa de vidro, falam dessa tentativa po\u00e9tica e ao mesmo tempo frustrada, da impossibilidade de segurar esse espa\u00e7o, de separar totalmente o dentro e o fora. A medida em que o tempo passa, o bal\u00e3o se esvazia.<\/p>\n<p>Nos trabalhos com o bal\u00e3o cheio de g\u00e1s h\u00e9lio j\u00e1 \u00e9, n\u00e3o s\u00f3 uma aceita\u00e7\u00e3o dessa impossibilidade, como tamb\u00e9m uma exposi\u00e7\u00e3o (n\u00e3o prote\u00e7\u00e3o) desse \u2018objeto\u2019 em rela\u00e7\u00e3o aos movimentos no mundo. Nesse caso o ar vem de fora do corpo, da natureza, se envolve nos movimentos do ar que \u00e9 externo a ele e depois esvazia. Fala dessa vulnerabilidade ao contexto (ao gesto do outro) de uma forma mais viva, menos passiva talvez.<\/p>\n<p>O bal\u00e3o passa de um oposto ao outro, talvez para falar de posturas que temos em rela\u00e7\u00e3o ao mundo, e tamb\u00e9m dessa dualidade do dentro e fora.<\/p>\n<p>A gaze e o bal\u00e3o s\u00e3o de alguma forma inv\u00f3lucros, como membranas, em geral a gaze em rela\u00e7\u00e3o a pele e o bal\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao ar. \u00c9 como se de alguma forma eles fossem a membrana de um espa\u00e7o sens\u00edvel, mas que n\u00e3o tem como apreender ou proteger, pois \u00e9 t\u00e3o fr\u00e1gil e fluido como esse espa\u00e7o em si. Numa id\u00e9ia de que n\u00e3o se pode proteger ou envolver as sensa\u00e7\u00f5es todas internas, tamb\u00e9m n\u00e3o se pode envolver o ar, nem o tempo nem o espa\u00e7o. Pode-se por\u00e9m se deixar envolver com o ar, com o tempo e com o espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao bal\u00e3o que voc\u00ea diz na pergunta que est\u00e3o \u201cquase livres\u201d, antes disso eu penso que eles est\u00e3o em equil\u00edbrio e\/ ou desequil\u00edbrio eminentes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>MA: Nos trabalhos com o bal\u00e3o cheio de h\u00e9lio outro fator surge que \u00e9 a dificuldade de localizar o trabalho. O que voc\u00ea considera ser o trabalho? \u00c9 o objeto, que eu venho chamando de aparato? \u00c9 a intera\u00e7\u00e3o do espectador com ele? Ou \u00e9 a documenta\u00e7\u00e3o seja, o v\u00eddeo, a foto ou o pr\u00f3prio desenho em si ?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>ML: O \u2018objeto\u2019 n\u00e3o \u00e9 apenas um aparato. \u00c9 um \u2018corpo\u2019 que fala de uma rela\u00e7\u00e3o com o outro, com espa\u00e7o e com ar.<\/p>\n<p>\u00c9 um trabalho que passa por diferentes meios, que podem existir juntos ou at\u00e9, alguns deles, independentes. O processo por\u00e9m, a principio, n\u00e3o \u00e9 exposto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>MA: Parece haver uma certa mod\u00e9stia no trabalho, na sua escala ou nos seus materiais. O quanto isso \u00e9 intencional ?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>ML: Talvez tenha alguma coisa a ver com o sil\u00eancio. Ou ainda com o fato dos trabalhos serem delicados e fluidos.<\/p>\n<p>Fora isso, acho que \u00e9 porque a hist\u00f3ria pra mim \u00e9 mais uma coisa simples. \u00c9 antes uma coisa muito simples do que uma coisa complexa no que diz respeito aos seus meios, seus \u2018instrumentos\u2019, a materializa\u00e7\u00e3o ou visualiza\u00e7\u00e3o de um coisa, apesar do fato dessa \u2018coisa\u2019 nem sempre ser simples ou modesta. O processo dessa materializa\u00e7\u00e3o \u00e9, em certa medida, simples; uma \u2018rebusca\u00e7\u00e3o\u2019 ou at\u00e9 uma \u2018profissionaliza\u00e7\u00e3o\u2019 do meio, pra mim, pode at\u00e9 atrapalhar, como que fixando um caminho para o trabalho, ou mesmo rendendo o trabalho a uma serie de exig\u00eancias de ordem visual ou de significado.<\/p>\n<p>Assim, essa mod\u00e9stia a que voc\u00ea se refere, acho que \u00e9 sobre uma simplicidade instintiva, que, pra mim, protege o trabalho de significados e referencias fechadas, ao contrario disso, me da liberdade pra experimentar, me envolver, como numa rela\u00e7\u00e3o mais livre (e mais honesta), menos pr\u00e9-determinada, com menos pr\u00e9-requisitos ou pr\u00e9-conceitos. Mant\u00eam o trabalho ainda mais pr\u00f3ximo da vida.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o a inten\u00e7\u00e3o, esse entendimento vem sempre depois do trabalho. \u00c9 assim que a coisa caminha pra mim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>MA: A minha primeira quest\u00e3o perguntava sobre como seu trabalho recente parece se oferecer ao ambiente. Eu gostaria de te perguntar finalmente, como voc\u00ea como artista, se relaciona com seu pr\u00f3prio meio? Como algu\u00e9m que atua entre Rio e Londres, parece existir, mesmo que isso aconte\u00e7a num n\u00edvel inconsciente, uma rela\u00e7\u00e3o com esses lugares que \u00e9 consideravelmente distinta. O quanto isso depende da familiaridade ou n\u00e3o familiaridade do lugar (como nas imagens feitas no Parque Lage e naquele rio no Rio de Janeiro comparadas com aquela rua p\u00f3s-industrial, abandonada, do seu v\u00eddeo onde s\u00f3 se v\u00ea a rua, as pernas e a sombra de uma pessoa, um monte de linha, e a sombra do bal\u00e3o com linha infinita que nunca entra em quadro) ou da progress\u00e3o do trabalho propriamente dito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>ML: Acho que essa n\u00e3o familiaridade com tudo (espa\u00e7o, ritmo, etc) fez, num primeiro momento com que os trabalhos tratassem muito de uma repeti\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica, sem fim, num espa\u00e7o qualquer. Depois de quase um ano, acabei voltando a aten\u00e7\u00e3o (e a liberdade) para os movimentos mais silenciosos que sempre me interessaram, que dizem mais respeito a quest\u00f5es internas do ser humano e dependem menos da cultura.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sorry, this entry is only available in PT. 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