{"id":479,"date":"2012-12-20T18:05:08","date_gmt":"2012-12-20T18:05:08","guid":{"rendered":"http:\/\/marialaet.com\/?p=479"},"modified":"2017-01-23T16:05:06","modified_gmt":"2017-01-23T16:05:06","slug":"devagar-e-sempre","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/marialaet.com\/en\/textos\/devagar-e-sempre\/","title":{"rendered":"Devagar e sempre"},"content":{"rendered":"<p class=\"qtranxs-available-languages-message qtranxs-available-languages-message-en\">Sorry, this entry is only available in <a href=\"http:\/\/marialaet.com\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/479\" class=\"qtranxs-available-language-link qtranxs-available-language-link-pb\" title=\"PT\">PT<\/a>. For the sake of viewer convenience, the content is shown below in the alternative language. 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Galeristas seguem \u00e1vidos procurando novos nomes. Curadores, idem. Uma das consequ\u00eancias deste sintoma, em tudo correlato \u00e0 natureza do capital, \u00e9 a de colocarmos no mundo de forma demasiadamente precoce muitos artistas, e, em alguns casos, artistas ainda sem obra. Ou seja, \u00e9 preciso cuidado na aproxima\u00e7\u00e3o com uma produ\u00e7\u00e3o em seu estado inicial diante de um contexto como este.<\/p>\n<p>A mostra em cartaz na Galeria A Gentil Carioca La, \u201cO que Vive \u00e9 Espesso\u201d, de Maria Laet (1982), exibe um recorte da obra de uma artista cujo percurso vem sendo maturado lentamente ao longo dos \u00faltimos oito anos. Esta sabedoria no manuseio do tempo de sua trajet\u00f3ria talvez seja um reflexo da natureza mesma do trabalho realizado por Maria. Com curadoria de Frederico Coelho, a exposi\u00e7\u00e3o revela uma obra que vai na contra mao do espet\u00e1culo, sendo permeada pelo signo da delicadeza, bem como de uma certa salutar lentid\u00e3o. Tudo ali se mostra aos poucos, e nos demanda, igualmente, um tempo dilatado para que possamos entrar em seu universo.<\/p>\n<p>A arista apresenta aqui uma reuni\u00e3o concisa de trabalhos recentes. Est\u00e3o ali presentes as principais caracter\u00edsticas do trabalho da artista, tais como o olhar cuidadoso que faz do mundo o recept\u00e1culo de suas interven\u00e7\u00f5es, o tempo dilatado, o corpo como membrana que se torna co-autora de diversas obras, a linguagem lembrada no ponto em que ela encontra o seu limite ou evoca poss\u00edveis, pequenas e breves salva\u00e7\u00f5es e as tentativas de reter aquilo que \u00e9 ef\u00eamero.<\/p>\n<p>O t\u00edtulo da mostra tem inspira\u00e7\u00e3o em um trecho do poema \u201cO c\u00e3o sem Plumas\u201d, de Jo\u00e3o Cabral de Mello Neto. O curador nos lembra, em seu texto para a mostra, que ali, na tessitura do poema, o que vive \u201cincomoda de vida o sil\u00eancio, o sono e o corpo\u201d. Maria, por sua vez, parece querer, em cada trabalho, incomodar de vida, perturbar, acordar aquilo que se encontra em sil\u00eancio, inerte, adormecido. Por isso trabalhos como \u201cSem t\u00edtulo (linha e neve)\u201d, no qual vemos uma fotografia de uma ch\u00e3o costurado repleto de gelo. Costurar o gelo, costurar a areia, s\u00e3o a\u00e7\u00f5es que se tornam fotos que buscam tornar vivo, animado, aquilo que do contrario estaria fadado ao esquecimento, ao uso comum, trilha para algum lugar. Maria faz da travessia o centro da aten\u00e7\u00e3o. Costurar um ch\u00e3o nevado \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o in\u00fatil e gr\u00e1vida de poesia. Mas \u00e9 justamente na inutilidade \u2013 em uma \u00e9poca marcada pela necessidade de tudo, a todo o momento, ter uma finalidade \u2013 \u00e9 onde reside a diferen\u00e7a da arte. N\u00e3o custa relembrar a bel\u00edssima passagem de Hannah Arendt a respeito desta dimens\u00e3o: Os \u00fanicos objetos que parecem destitu\u00eddos de fim s\u00e3o os objetos est\u00e9ticos, por um lado, e os homens, por outro. Deles n\u00e3o podemos perguntar com que finalidade? Para que servem? Pois n\u00e3o servem para nada. Mas a aus\u00eancia de fim da arte, tem o \u201cfim\u201d de fazer com que os homens se sintam em casa no mundo&#8221;.<\/p>\n<p>Doar espessura para o entorno parece ser o desejo movente dos trabalhos da ainda jovem artista; e, neste mesmo lance, quem sabe lograr, sem ter garantia alguma, a sensa\u00e7\u00e3o se se sentir mais em casa no mundo. Para isso \u00e9 preciso ir de encontro a ele. Seja marcando com as m\u00e3os embebidas em tinta preta um par de pedras, irmanando a mem\u00f3ria secular das mesmas com a vida humana destinada ao fenecimento, seja testando os limites da linguagem em s\u00e9rie de cadernos na qual as palavras s\u00e3o escritas, apagadas, e reescritas; revelando assim a dificuldade em irromper o sil\u00eancio, como que precisando fazer e desfazer, e fazer novamente, para desta forma mostrar as possibilidades e as limita\u00e7\u00f5es da tentativa de edificar aquilo que se encontra em estado latente.<\/p>\n<p>Na fotografia \u201cSem t\u00edtulo (Gangorra)\u201d a pr\u00f3pria artista surge em uma gangorra, em equil\u00edbrio com uma pedra que lhe faz par no brinquedo. De alta voltagem po\u00e9tica, a imagem d\u00e1 continuidade ao di\u00e1logo de Maria com os entes aparentemente inanimados, doando-lhes uma vida antes ausente, no lugar da pessoa, a pedra. Pedra que tamb\u00e9m evoca uma conversa sens\u00edvel com o sil\u00eancio. \u00c9 com ela que a artista trava o di\u00e1logo e encontra sua medida no mundo. Maria Laet surge assim como uma jovem artista possui olhos e ouvidos atentos para perceber que o murm\u00fario, em meio ao estardalha\u00e7o contempor\u00e2neo, pode ser mais bem escutado do que mais um berro em meio a cacofonia generalizada de nossos tempos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sorry, this entry is only available in PT. 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