{"id":619,"date":"2014-03-16T22:19:29","date_gmt":"2014-03-16T22:19:29","guid":{"rendered":"http:\/\/marialaet.com\/?p=619"},"modified":"2017-01-16T22:21:20","modified_gmt":"2017-01-16T22:21:20","slug":"situacao-de-agua","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/marialaet.com\/en\/textos\/situacao-de-agua\/","title":{"rendered":"Situa\u00e7\u00e3o de \u00e1gua"},"content":{"rendered":"<p class=\"qtranxs-available-languages-message qtranxs-available-languages-message-en\">Sorry, this entry is only available in <a href=\"http:\/\/marialaet.com\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/619\" class=\"qtranxs-available-language-link qtranxs-available-language-link-pb\" title=\"PT\">PT<\/a>. For the sake of viewer convenience, the content is shown below in the alternative language. You may click the link to switch the active language.<\/p><p>&nbsp;<\/p>\n<p>[\u2026] n\u00e3o ser\u00e1 a aus\u00eancia a mais certa,<br \/>\na mais eficaz, a mais intensa, a mais indestrut\u00edvel,<br \/>\na mais fiel das presen\u00e7as?<br \/>\nMarcel Proust<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cSitua\u00e7\u00e3o de \u00e1gua\u201d. O que podemos derivar do t\u00edtulo que batiza a mostra individual de Maria Laet? De maneira breve, podemos pensar esse elemento essencial com um duplo sentido, \u00e1gua como o que deixa sua marca na mem\u00f3ria das coisas, por onde quer que passe e, ao mesmo tempo, aquilo que n\u00e3o tem limite nele mesmo, procura o movimento, escorre, transborda, \u00e9 afeito a desconhecer fronteiras. Entre psicanalistas h\u00e1 uma express\u00e3o que diz \u201cfaz \u00e1gua\u201d para quando o inconsciente vem \u00e0 tona. Uma situa\u00e7\u00e3o de \u00e1gua seria, ent\u00e3o, aquela que flerta com os limites, sabendo que os mesmos nunca s\u00e3o fixos.<\/p>\n<p>Ao deixar rastros, a \u00e1gua \u00e9 prima da mem\u00f3ria. Tra\u00e7os, marcas, gestos revelam tra\u00e7ados pelo mundo em cada obra de Maria. Suas a\u00e7\u00f5es parecem buscar uma linha sutil que separa coisas, pessoas. Linha que ora pode ser ultrapassada, promovendo o toque, a troca, ora pode demonstrar a impossibilidade da comunica\u00e7\u00e3o, do encontro. Mas aqui nada se conclui em definitivo. Como a \u00e1gua que n\u00e3o deixa ver seus limites, que transborda, h\u00e1 aqui esta aus\u00eancia de borda, de fim.\u00a0Habitar este lugar delicado e nos aproximar dele, recordar sua exist\u00eancia, eis o que se d\u00e1 nos trabalhos aqui reunidos.<\/p>\n<p>A obra de Maria tem como motor um desejo de doar espessura ao entorno, neste lance, a artista nos faz ver aquilo que media as rela\u00e7\u00f5es entre coisas, corpos, falas. Para isso \u00e9 preciso ir de encontro ao mundo e cravar no mesmo uma presen\u00e7a. Seja marcando com as m\u00e3os embebidas em tinta preta um par de pedras, irmanando a mem\u00f3ria secular das mesmas com a vida humana destinada ao fenecimento, seja colocando lado a lado, como em uma conversa que se d\u00e1 por murm\u00farios, a marca de duas palmas que olham uma para outra bem de perto, e ali vivem, flertando com o quase que \u00e9 a morada do erotismo. Ao olharmos uma, entrevemos sempre a outra, o que era dois torna-se um (\u201cDois\u201d).<\/p>\n<p>Em \u201cSem t\u00edtulo (Gangorra)\u201d a pr\u00f3pria artista surge em uma gangorra, em equil\u00edbrio com uma pedra que lhe faz par no brinquedo. De forte voltagem po\u00e9tica, a imagem d\u00e1 continuidade ao di\u00e1logo de Maria com os entes aparentemente inanimados, doando-lhes uma vida antes ausente, no lugar da pessoa, a pedra. Pedra que tamb\u00e9m evoca uma conversa sens\u00edvel com o sil\u00eancio. \u00c9 com ela que a artista trava o di\u00e1logo e encontra sua medida no mundo.<\/p>\n<p>Esta medida, aqui, se d\u00e1 com a consci\u00eancia de que todo terreno \u00e9 incerto. Trata-se de uma delicada e constante tentativa de equilibrar-se sobre a \u00e1gua. \u201cSopro\u201d, s\u00e9rie de quatro gravuras na qual uma mesma quantidade de tinta vai desaparecendo versa sobre este estado fugidio, para o qual a mais forte das presen\u00e7as \u00e9 aquela ausente.<\/p>\n<p>Tal rela\u00e7\u00e3o entre interior e exterior encontra-se no dip\u00edtico \u201cSobre o que n\u00e3o se contem\u201d. No meio do grande papel branco, imaculado, um feixe que o corta ao meio e releva que do lado de l\u00e1 existe algo pulsando. Aqui qualquer gesto m\u00ednimo pode deflagrar o rompimento daquilo que antes assegurava o limite. A conten\u00e7\u00e3o \u00e9 somente pretexto para exibir a sua impossibilidade. Por isso o papel \u00e9 ceifado e a tinta o atravessa, \u201cfaz \u00e1gua\u201d.<\/p>\n<p>Na s\u00e9rie \u201csem titulo\u201d (gaze), tr\u00eas impress\u00f5es de gazes embebidas em tinta, com diferentes grada\u00e7\u00f5es, exibem tramas que mais uma vez evocam superf\u00edcies. Estamos diante de uma esp\u00e9cie de grid. Mas um grid que n\u00e3o \u00e9 frio, tampouco avesso \u00e0 vida, como aquele moderno, ao contr\u00e1rio, a gaze \u00e9 uma trama usada para curar, cuidar, proteger, e surge aqui entremeada, desordenada, sua linhas retas ganharam curvas e misturaram-se umas as outras.<\/p>\n<p>Em \u201cLeito\u201d vemos um leite escoar lentamente sobre um asfalto. Mais uma vez a conversa com o limite, no caso o ch\u00e3o que pisamos, o que nos sustenta, est\u00e1 posta em obra. Maria parece querer incomodar de vida, perturbar, acordar aquilo que encontra-se inerte, adormecido, como o asfalto mudo das ruas. Dar voz para estes entes silenciosos. Ao fim do v\u00eddeo, o leite \u00e9 quase totalmente sugado pela pele \u00e1rida que percorre. Note-se que em \u201cSobre o que n\u00e3o se contem\u201d o movimento de irrup\u00e7\u00e3o ocorre de dentro para fora, j\u00e1 aqui acontece de fora para dentro.<\/p>\n<p>O v\u00eddeo \u201cSepara\u00e7\u00e3o\u201d revela m\u00e3os persistentes, num movimento lento mas constante, que tentam desmembrar dois fios pretos que formam um grande n\u00f3. Qualquer n\u00f3 se d\u00e1 somente quando algo ou algu\u00e9m invade algum limite. O n\u00f3 \u00e9 o resultado de uma suspens\u00e3o de fronteiras, intencional ou n\u00e3o. Maria afirma a um s\u00f3 tempo a exist\u00eancia dos n\u00f3s como conseq\u00fc\u00eancias inevit\u00e1veis de se estar vivo e a busca por desat\u00e1-los como igualmente necess\u00e1ria. Como uma fita de moebius, aqui n\u00e3o existe in\u00edcio, nem fim.<\/p>\n<p>A tentativa de desfaz\u00ea-lo mostra-se ainda mais \u00e1rdua pela proximidade com que o gesto \u00e9 realizado. A dist\u00e2ncia m\u00ednima evoca aquela que usamos para costurar, ler, comer, ou falar com algu\u00e9m \u00edntimo. Por serem fios da mesma cor, ambos pretos, torna-se dif\u00edcil discernir cada um. A individua\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo necess\u00e1rio, por\u00e9m penoso.<\/p>\n<p>\u201cSitua\u00e7\u00e3o de \u00e1gua\u201d \u00e9 uma exposi\u00e7\u00e3o coesa que nos entrega, de trabalho em trabalho, um \u00fanico e extenso poema monocrom\u00e1tico. A artista, em sua narrativa que equilibra-se sobre a \u00e1gua, sinaliza que \u00e9 ali, no espa\u00e7o em branco entre um verso e outro do poema, na pausa, no entre, na cesura, que habita o significado do que veio antes, e do que vir\u00e1 depois. Diante das obras de Maria Laet h\u00e1 que se ter olhos para as brechas e ouvidos para os murm\u00farios, todos gr\u00e1vidos de sentidos, prontos para doar espessura ao mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sorry, this entry is only available in PT. 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