Desenhos de ar

 

O intervalo e o ar são a matéria prima dos desenhos de Maria Laet. O vento gerado pelo movimento do corpo ou pelo sopro é o que provoca o deslocamento da tinta. Há, nas duas séries aqui apresentadas, uma distância considerável entre o gesto e o papel. A distância que seu corpo toma do suporte reduz bastante o controle que a artista tem sobre o resultado. É do acaso e da indeterminação do processo a origem da expressividade desses desenhos.

Há um esforço físico para que cada linha seja traçada. Numa das séries um balão de gás hélio suspende um algodão entintado que voa conforme a direção da brisa. Daí a dificuldade de uma precisa correspondência gráfica entre o movimento do corpo e a linha. Entre gesto e desenho há descontinuidade.

A outra série é realizada com nanquim sobre uma pilha de papéis. Como num diálogo silencioso, a tinta é assoprada por duas pessoas em sentidos opostos. O nanquim atravessa as camadas de papéis até ser completamente absorvido. Enquanto o balão tende ao movimento ascendente, nessa série a força da gravidade inverte o sentido. Exibidos em sequências horizontais, os desenhos apresentam os indícios do sopro e seu processo de desaparecimento. O que era uma pilha tridimensional de papéis é exposto com ênfase no plano. A transparência do suporte e a relação entre cada um dos desenhos é refeita mentalmente pelo público. Tudo se passa como se em vez de assistirmos a um segundo de um filme contemplássemos separadamente cada um dos 24 frames de uma película.

É para o hiato entre (em/ dentro de ?) cada um dos desenhos e para o vazio entre o gesto do corpo e as marcas no papel que esses trabalhos chamam atenção. O que é esse intervalo? Talvez esteja nele o modo distanciado com que o sujeito contemporâneo se relaciona como os objetos. Ou então a própria ligação do homem com o mundo. De todo modo trata-se de um vazio prenhe de significados.

no trabalho com balão sempre me interessou a vulnerabilidade (suscetibilidade/ sensibilidade..) extrema desse objeto a qualquer mínimo movimento em volta dele. Ou seja, a forma própria como ele reage ao gesto do corpo perto dele (uma forma de contato mais sutil, indireta, sem a ‘obviedade’ do contato físico), como que incorporando (expressando ou simbolizando ?), um possível estado nosso (humano) de ser ou estar no mundo. Assim nao deixa de ser nesse trabalho o encontro de dois ‘corpos’ que não são indiferentes, reagem, a presença um do outro. Esse intervalo pra mim, representa potencialmente esse espaço de encontro de uma pessoa com o mundo, ou com o outro. No vazio o gesto se reverbera, ganha espaço, e de uma forma entra em contato com o outro, nesse caso o balão, que é suscetível suficiente pra ‘responder’. Então, nessa distancia física que é parte essencial no trabalho, existe um outro tipo de ligação com o objeto que é extremamente próxima. – por isso eu me identifico mais com a sua segunda hipótese sobre que seria esse intervalo, a própria ligação do homem com o mundo.