Maria Laet

 

G: Queria que você contasse um pouco como foi o processo de este novo vídeo que você apresenta na Bienal. Como você encaixa ele na tua produção?

M: Me interesso e me identifico e me encanto pelas coisas que acontecem, e que não são tão notadas pelas pessoas de uma forma geral. Que acontecem, que vivem mais em silêncio, mais em paralelo ao que fala mais alto. É um processo intuitivo, como se esse universo me chamasse para o diálogo. Então, quando eu vim aqui no Pavilhão vazio, senti que é uma imensidão, é uma arquitetura que se impõe, muito forte. Como é tudo tão grande, tão importante, me chama ainda mais o olhar para essas sutilezas desse espaço vazio. Bom, além disso tem outro aspecto, que é o seguinte: muitos dos meus trabalhos acontecem através de alguma superfície, alguma espécie de pele, como areia, ou seja, a costura, ela está dentro e fora dessa superfície, a tinta que atravessa um papel permeável ou a tinta que atravessa um papel cortado, ou o leite que é absorvido porque o asfalto é permeável também, ou o sopro, que também que tem essa relação de dentro e fora do corpo. O que eu acho que também vi ali no pavilhão é que existe essa pele do brise, da arquitetura, que é essa superfície que eu estou chamando de pele, que é o limite entre estar dentro e fora do espaço, e nesse lugar que a gente está trabalhando, a palmeira, que é uma outra camada de pele. Então a luz do sol, nesse determinado momento do ano e ângulo do sol, ela atravessa essas duas camadas e toma vida, e toma forma no espaço dentro. Ou seja, ela acontece através e ela ganha vida dentro. E, assim, é uma coisa dentro desse espaço enorme, é muito pequenininho o que a gente está procurando mostrar, mas acho que tem essa fragilidade do que é pequeno e tem a vulnerabilidade de uma coisa que toma forma através de outras.

G: É através, mas também tem um assunto de permear, de atravessar, de entrar.

M: Isso.

G: E eu me pergunto se isso tem/ se você faz um paralelo entre isso e o jeito que a arte afeta ou como essas relações são construídas. Deixar se penetrar pelo olhar de outra pessoa.

M: Sim. Eu nem pensaria nas relações com a arte, o que também faz sentido, mas eu pensaria nas relações entre as pessoas. Que é também, assim, você acha isso na natureza. Na natureza você tem as pedras que são mais porosas e mais permeáveis pela água, tem outras que não são. Então são formas de estar no mundo. Você recebe a influência do outro, o olhar do outro ou não. Então, nesse sentido o prédio se torna também um corpo permeável.

G: Qual a relação que você faria com o seu trabalho, por exemplo, e a questão da atenção?

M: Eu acho que a atenção no meu trabalho, não sei se no meu trabalho, mas para mim, provavelmente tem muito a ver com o pensamento que vaga, com o devaneio. Eu acho que no devaneio você vai encontrar o que te toca de alguma forma. Então, se o meu olhar foi para esses pontos de luz que somem e que aparecem de acordo com como que está o tempo no dia, porque aquilo é uma atenção que devaneia, não é uma atenção que vai procurar a luz, é uma atenção que se deixa encontrar.